sábado, 22 de maio de 2010

Histórico

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        Para inicio de conversa, precisamos retroceder no tempo, pelo espaço de cento e vinte e sete anos, para encontrarmos o marco inicial da Família Oliveira a que pretendo me reportar neste reduzido trabalho. Tentarei descrever alguns aspectos da passagem desses queridos ancestrais pela localidade de Aldeia Velha, primeiro distrito do município de Santo Antonio da Patrulha, onde nasceram, cresceram, casaram, criaram e educaram nove filhos, os quais, seguindo as leis naturais da vida, repetiram os mesmos atos, possibilitando a formação desse grupo familiar que carrega os traços genéticos de seus cromossomos.
         A 19.08.1883, é quando aparece o primeiro homem destinado a reunir este punhado de gente que congrega hoje cerca de 140 pessoas, somando-se, inclusive, aquelas que passaram alguns momentos conosco, e já se foram, deixando um vazio enorme. Na contagem, também estão considerados aqueles que se agregaram ao grupo original, lançaram sementes em terra fértil, cuidaram com carinho de pequenas plantinhas que hoje brotam, florescem, e produzem frutos cada vez mais fortes e bonitos. Agora, em março de 2010, pouco mais de 87 anos após a ocorrência da primeira união matrimonial, estamos atingindo a soma de 95 descendentes diretos, entre filhos, netos, bisnetos e trinetos, o que, em termos estatísticos, atesta ter havido um crescimento percentual de 1,09 % ao ano.
         Vamos nos situar, imaginariamente, na Aldeia Velha, local onde nasceu um menino loiro, de olhos azuis, que se tornou um rapagão alto e forte, agricultor e comerciante, que tanto ajudava seus irmãos na produção agrícola, como também viajava, inclusive à capital do Estado, com a finalidade de vender açúcar mascavo, farinha de mandioca, rapaduras, melado, polvilho, etc, e adquirir alguns bens de consumo necessários à sobrevivência da família de seus pais, que era numerosa.           Segundo consta, tal viagem a Porto Alegre pelos tortuosos caminhos existentes naquela época, consumia em torno de duas semanas entre ida e volta, tendo em vista, com certeza, a diminuta velocidade do carro de bois.
         Esse moço, oriundo de uma família de certa posição social no lugar,na epoca, como se descreve adiante, conheceu uma menina moreninha, cabelos pretos e ondulados, bonita, faceira, que também se ocupava na fabricação de rapaduras, pois era o que fazia em solteira, quando trabalhava na casa de um tio e padrinho chamado André Graven, em troca de alguns mil-réis (unidade do padrão monetário (real) que vigorou até 1942, quando foi introduzido o cruzeiro).
         Só no início da segunda década do séc. XX, ano de 1921, mais precisamente no dia 05 de novembro, que, oficializado pelo registro civil e abençoado por Deus através do casamento religioso, o casal iniciou uma profícua e feliz união que duraria por trinta anos, interrompida em decorrência de um acidente com carreta de bois, veículo que, por ironia do destino, veio a vitimar aquele homem que tanto o conhecia, por razões profissionais.

Após o enlace (1921), passaram eles a residir no mesmo casarão onde nasceu e morava o noivo, juntamente com mais dois irmãos solteiros (Godo e Ziloca), uma prima em segundo grau recém casada (Alice, esposa de Vergamino Silveira Gil –Veiga -, filha de Matheus de Oliveira Sá e Maria Delfina de Oliveira ), e mais uma menina de nome Quita, que não era parente, mas criada por obra de caridade de Tia Ziloca. Consta que essa moça de nome Quita, depois de adulta teria resolvido acompanhar um de seus irmãos mais velhos que a colocou a trabalhar em um colégio de freiras, onde veio a falecer. Alice, que tratava tia Ziloca como “maninha”, foi assumida por seus tios e nossos patriarcas José Ignácio/Mariana, por motivo da morte da mãe – Maria Delfina, e, por novo casamento do pai (Matheus). Criada como irmã de meu pai, foi por nós sempre considerada e tratada, respeitosamente, como tia.
No rol de bens da família de José Ignácio de Oliveira, a serem partilhados, arrolados em 02 abril de 1884, no qual ele próprio  figura como inventariante e  herdeiro , aparece o nome de Matheus de Oliveira Sá, que viria ser o pai de Alice, na qualidade de herdeiro órfão. 
         As duas jovens recém casadas em 1921, Angelina e Alice, engravidaram no mesmo período, sendo que os primogênitos de ambas - José Luiz de Oliveira e Antonio de Oliveira Gil - têm quase a mesma idade, com diferença apenas de alguns dias.
        A família Gil, que ali começara, voltou a abrigar-se várias vezes na velha casa, já acrescida de outros membros, lá permanecendo pelo tempo necessário para encontrar novo destino. Ali era o refúgio para os momentos de infortúnio que sofreu. Daí entendermos porque além de primos em terceiro grau, os consideramos como verdadeiros irmãos, bem como o tratamento respeitoso de “tia Alice” com que nos referíamos à chefe do clã, quando, na verdade, era tão somente nossa prima. Quanto ao marido, figura simpática e amigável com todos, foi sempre chamado de “seu Veiga”.
        O casarão, em estilo colonial, construído totalmente em pedra rústica, era uma verdadeira fortaleza, com paredes extremamente grossas (cerca de 40 cms), possuía a porta principal bastante larga, de duas folhas com tranca de madeira, contendo na parte interna de uma dessas folhas uma oração (reza) escrita dentro de um desenho em forma de cruz, sobre um papel ou papelão, cujos dizeres fugiram-me da memória.
        A casa seria considerada enorme para os padrões de hoje, embora não oferecesse o conforto e a privacidade que era de desejar, sabendo-se que ali viveram tantas pessoas de sexos e idades diferentes. Dispunha de duas salas, uma varanda, três quartos, cozinha e despensa, peças muito amplas, interligadas por um corredor de frente a fundos. Toda a área social era assoalhada e forrada com tábuas de madeira largas e aplainadas, sendo o setor de serviço (cozinha e despensa) de chão batido e sem forro.
        Ao lado havia um pavilhão com cerca de 300 m² que abrigava uma atafona (fábrica de farinha e outros subprodutos da mandioca), além de um moinho para moagem de milho e trigo, este já fora de uso, quando o conheci e me lembro, década de 1930/40.
Na foto uma reprodução da fachada da casa original, onde nasceram o precursor e toda a primeira geração da família. Trata-se da visão artística da querida sobrinha Ione Ramos de Oliveira, bem depois da fase próspera dessa propriedade.
        Nos fundos existia outro prédio, constante de uma peça fechada e outra aberta, que teria servido como senzala (abrigo para os negros), resquícios da era escravista que vigorou no Brasil até 1888. Com relação aos escravos, sabia-se que nosso ancestral - José Inácio de Oliveira – teria sido bastante liberal no trato com eles, tendo, inclusive, favorecido alguns com dispensa do trabalho rigoroso, antes mesmo da extinção decretada pelo ato heróico da Princesa Isabel.
      Consta, que, além da liberdade, concedeu pedaços de terras para alguns se instalarem, além da permissão de uso do nome “Boeira” pelo qual nossa família era conhecida. Alguma das “bondades” de nosso avô, de que se ouvia falar quando crianças, não seria entendida hoje, ao pé-da-letra, sabendo-se que os negros já gozavam de certa proteção legal desde 1871 (Lei do Ventre Livre), dezessete anos antes da abolição, sem falarmos na Lei dos Sexagenários, de 1885, que liberava do trabalho os escravos maiores de sessenta anos, numa espécie de aposentadoria.
        Se algum dia encontrarmos um cidadão de pele mais escura, com sobrenome Boeira, não custa estender-lhe a mão, pois possivelmente estaremos diante de um “irmão” dos tantos que por certo andarão perdidos por este mundo de Deus. Situação semelhante ocorreu-me no ano de l955, na cidade de Esteio, quando encontrei um neto de “Chico Boeira”, antigo escravo alforriado de nosso avô, no exato momento em que precisava de alguém que acreditasse na sua palavra, para amenizar o constrangimento por que passava na ocasião, em razão de acusação infundada.
        O complexo de edificações se completava com galpões destinados à guarda de ferramentas e utensílios próprios de qualquer estabelecimento rural, bem como ao abrigo de animais (terneiros, chiqueiro de porcos, galinheiros, etc).
       À frente dessa moradia, uma enorme figueira, cujos galhos serviram para embalar toda a nossa geração, além de oferecer sombra e abrigo para o gado, durante as horas de sol mais forte do verão ou nos dias chuvosos do inverno. Essa árvore teria sido plantada quando nosso pai era menino, pouco antes do ano de 1900, e a muda teria saído das proximidades da chácara que hoje pertence ou pertenceu ao sr. João Marica, cujo lugar era conhecido como Água Comprida. Nunca foi permitido se fizesse fogo nas proximidades de suas raízes.
Aliás, sobre a beleza e os benefícios dessa árvore abençoada, há um trabalho poético que descreve muito bem o que ela representava para nossa família, e que será brevemente publicado nesta página, com autorização do autor, meu amado irmão Sérgio.
As terras, de razoável tamanho, eram utilizadas no regime de cultura diversificada e criação de algumas cabeças de gado, utilizando-se as partes baixas e arenosas para o cultivo maior da mandioca, e, a porção pedregosa e as encostas do morro para a plantação de cana de açúcar. Ambas transformadas em produtos rentáveis. Milho, feijão, trigo e outros cereais, eram plantados em pequena escala, em roçados menores, apenas para subsistência.
        Na parte alta existia também uma construção contendo engenho completo para industrialização da cana (melado, rapadura e açúcar mascavo), dispondo ainda de uma precária instalação residencial onde toda a família se abrigava para passar alguns meses, durante a respectiva safra. Havia um detalhe arquitetônico interessante nessa casa, pois fora inteligentemente construída numa ladeira, de forma a apresentar três “pavimentos”, todos térreos, em diferentes níveis, aproveitando a declividade natural do terreno. No primeiro “andar” ficava o forno do melado e o tacho da rapadura com suas respectivas fornalhas, bem como o tabuleiro onde se fabricava o açúcar; no seguindo, a cozinha com fogão de lenha (fogão-de-rabo, feito de pedras com chapa de ferro), a mesa (com dois bancos rústicos inteiriços de madeira), o dormitório com camas chamadas “tarimbas”), que eram tábuas cobertas com colchões de palhas de milho, e mais um grande cocho (reservatório cavado em tronco de madeira para depositar a garapa (caldo de cana). Na verdade era um salão só, muito enfumaçado, pelo uso constante do fogão e das fornalhas já referidas. Subia-se por uma escada larga, de madeira, chegando-se à parte superior onde se achava o engenho propriamente dito, constante de três moendas de ferro movidas por uma junta de bois. Moer a cana era um trabalho quase exclusivo da Maria do Carmo, menina ainda, que ali passava a maior parte do dia, às vezes cantando, outras chorando. Graças a Deus, saiu-se bem dessa empreitada, quando era muito comum que pessoas menos cuidadosas tivessem mãos mutiladas naquele tipo de serviço. Esse compartimento tinha a aparência de um grande galpão, quase todo aberto, sendo fechada, de forma grosseira, apenas por um dos lados que dividia com o piso intermediário e com o quarto destinado à moradia permanente de tio Godo (Godofredo Gomes de Oliveira), que lá passou a residir como em certa ocasião, já que se conservara solteiro.
        A dinâmica de funcionamento do engenho era a seguinte: a cana, de cultivo próprio ou de vizinhos, vinha em feixes amarrados com rodilhas de cipó, era amontoada e moída; a garapa passava por encanamento subterrâneo, descia para o depósito provisório (cocho), dali para o forno onde fervia por seis horas ou mais até transformar-se em melado, que era colocado em tonéis metálicos. A seguir, o produto tanto poderia ser convertido em rapadura ou açúcar, como comercializado para indústrias de balas, doces, etc. A produção era em pequena escala, pois as terras já se achavam exauridas e a força de trabalho braçal era diminuta, contando, para os serviços de roça, quase só da ação do chefe da família e dos filhos José e Alberto, que eram os mais velhos. Isso no início da década de 40, quando eu já era menino de dez anos.
            Eu, em face da pouca idade, estava dispensado desse serviço, tendo a obrigação de ficar na casa grande fazendo companhia à tia Ziloca (Angelina Gomes de Oliveira), a quem devo grande parte de minha educação, pois era ela quem tomava minhas lições de casa e cuidava do comparecimento regular à escola.
Jamais poderemos esquecer de que essa pessoa foi uma segunda mãe para todos, pois, além de repartir conosco sua modesta cultura, também costurava nossas roupas, ensinava boas maneiras, e, como fervorosa praticante da religião católica, integrante do Apostolado da Oração, nos incutia o respeito a Deus, o ensino do catecismo, o preparo para a primeira Comunhão e o dever de irmos à missa todos os domingos. Isto até hoje não nos causou nenhum peso, ao contrário, tem servido de refrigério nas horas de incertezas. A bem da verdade, essa tia, que era solteirona, dispunha de mais tempo do que nossa autêntica e querida mãe sempre assoberbada pelos trabalhos normais de dona de casa, além do cansativo e penoso serviço na produção de bens que seriam transformados em dinheiro, como os derivados da cana e da mandioca.
          Conhecemos a citada propriedade totalmente fragmentada, repartida entre os herdeiros. Vamos comentar neste relato somente a fração herdada por Adelino, Ziloca e Godofredo, que permaneceu intacta por algum tempo, e, era explorada em comum acordo, uma vez que esses três irmãos continuaram vivendo juntos.          Posteriormente, de comum acordo, a propriedade foi desmembrada para possibilitar a venda do quinhão de cada um.
      Acreditamos que nosso primeiro ancestral – José Inácio de Oliveira - foi um misto de ruralista e militar, pois detinha patente de capitão da Guarda Nacional, milícia criada nos moldes de organização francesa semelhante, em 1831, em meio às agitações políticas do       Período Regencial (fase pós-abdicação de D.Pedro I, que foi até 1840, ocasião em foi decretada a maioridade legal do Príncipe D.Pedro II para assumir o trono imperial brasileiro). Apenas a título ilustrativo: houve uma regência provisória (Trina) de 1831 a 1835, depois uma Regência Una, de 1835 até 1840, com Diogo Antonio Feijó, substituído por Araújo Lima. O serviço na Guarda era obrigatório para todos os homens maiores de 18 anos, com determinada renda, o que fez a milícia ser formada, basicamente, por proprietários rurais e comerciantes. Considerada tropa auxiliar do exército, teve importante papel na unidade nacional, combatendo tendências separatistas em várias províncias até meados do séc. XIX. Participou, também, da Guerra do Paraguai (1865/70). Suas patentes, especialmente a de coronel, eram muito disputadas pelo prestígio que conferiam. Com a consolidação do exército após a Guerra do Paraguai, entrou em declínio e foi extinta em 1922. Parte de seu fardamento (túnica, quepe, dragonas douradas, etc) era zelosamente guardada por tia Ziloca.
       O livro de registro dos componentes regionais dessa tropa, com nomes, valores de contribuição, etc, tudo muito bem manuscrito em esmerada caligrafia, com, com muitas folhas em branco, serviu para alimentar a santa e ingênua ignorância infantil da nossa geração, que brincava, rabiscava e rasgava o que seria agora uma relíquia de inestimável valor histórico. Era um belíssimo livro, semelhante aos que se usam nos cartórios do registro de imóveis.
       A espada, com lâmina e bainha brilhantes, se não me engano com inscrições em francês, ainda existe, embora com alguns estragos decorrentes do tempo.
      Concomitantemente às lides rurais e militares, teria ele também exercido outro cargo público de relevância no município, ou seja, o de Delegado de Polícia Adjunto, conforme consta do ato de nomeação assinado pelo Governador do Estado, cuja cópia existe no Museu Histórico de Santo Antonio da Patrulha.
      Voltando especificamente ao par original desta família, devemos informar que foi um casal compromissado com o trabalho, com a honradez e a verdade, uma mistura da energia controlada do pai com uma bondade, calma e paciência de fazer inveja, da mãe.        Aquele homem grande e forte, tão exigente no trabalho e na educação dos filhos, escondia um coração mole dentro do peito, capaz de se derramar em lágrimas cada vez que um filho se afastava de casa, mesmo que fosse por curto espaço de tempo. Cometeria uma grande injustiça se deixasse de registrar o interesse que tinha pelo estudo dos filhos, colocando sempre em primeiro lugar os deveres escolares de cada um, mesmo em detrimento dos trabalhos de roça mais urgentes. Dizia sempre que a educação seria o maior patrimônio que poderia deixar como herança.
    Embora fosse homem de pouquíssimas letras (assinava o nome e era eleitor), gostava de estar sempre bem informado, seja pelo que ouvia de algum vizinho mais letrado, seja pelo noticiário do Correio do Povo, que esporadicamente mandava comprar na farmácia do seu “Tetéia” após a missa de domingo, e fazia com que eu o lesse para ele escutar, especialmente os comentários referentes à Segunda Guerra Mundial, lá pelos idos de 1943/45. Rádio era um sonho impossível para nosso minguado poder aquisitivo (tratava-se de artigo de luxo, importado e caro).
    Aquela moça morena, um mar de ternura e de bondade, que enfrentava qualquer trabalho, cuidava do marido, dos filhos, das lides caseiras, das hortas e dos animais em volta da casa, ainda achava tempo para fazer serões à luz de velas (candeeiro de querosene), amaciando, cortando e amarrando maços de palha de milho (para cigarros) ou confeccionando chapéus e cestas (tipo bolsas) de palhas de trigo trançadas. Os chapéus eram distribuídos para todos os da casa; as bolsas eram usadas para levar os livros e cadernos para a escola; as palhas de cigarros que ela chamava de “minhas quitandas” eram vendidas, ou quase sempre trocadas por alguma mercadoria, o que muito ajudava no orçamento doméstico. Nosso pai não fumava, não bebia, nem jogava. Se algum dos filhos ousou acender um cigarro enquanto morou sob o mesmo teto, certamente o fez às escondidas, não que houvesse uma proibição explícita, mas o respeito pelo exemplo salutar daquele modelo, sempre falou mais alto.
      Houve época em que nossa casa, embora de parcos recursos, servia como ponto de referência para almoço ou pousada de bandeiras (angariadores de ofertas para festas religiosas), esmoleiros, andarilhos, etc, que lá sempre encontravam um prato de comida, e, no mínimo, uns bons pelegos para descansarem.
      Acredito que a fase produtiva, economicamente viável no que restou do sítio, durou somente até por volta do ano de 1945 (final da guerra), daí começando o declínio e a debandada em busca de melhores colocações. Tio Godofredo, já adoentado, pouco fazia; o José e o Alberto, os braços fortes do grupo, partiram primeiro em busca de trabalho ocasional nas redondezas (safras de arroz, cana, etc), depois encontraram emprego fixo: José, no comércio em Santo.Antonio e Alberto na indústria, em Porto Alegre; O Oliveiros, chamado “Liveira”, passou a trabalhar num armazém na capital do Estado; A Maria foi lecionar na localidade de Sangão, quase na divisa com o município de Taquara, depois em Campestre (perto de Monjolo).
       Eu, Antonio, depois de alguns biscates, fiz minha primeira investida em direção a Porto Alegre, aos 14 anos (1947), onde me coloquei numa fábrica de brinquedos (Becker, na Rua 25 de Julho) e depois num armazém (Gomes, na Vila Floresta); Passado algum tempo, retornei para a “santa terrinha” onde arranjei serviço no comércio, dali alçando vôo em 1952, para servir ao exército nacional e permanecer na capital do Estado.
     Nenhum de nós, embora afastados, jamais perdeu o afeto com os pais e os irmãos menores que lá ficaram.          Nos momentos de folga ou de insucessos em nossos empregos era para lá que corríamos e onde achávamos todos à nossa espera. Hoje, que sabemos bem o quanto é doloroso ter um filho longe de casa, podemos avaliar o verdadeiro sentido daquelas lágrimas do casal e a invariável expressão de nossos pais na hora da partida, quando ficavam acenando e repetindo: “ Que Deus e a Virgem Maria te acompanhem, meu filho”.
      Lembro com saudade dos momentos de alegria enquanto todos os irmãos estiveram juntos: era um bando de crianças e adolescentes brincando, o José tocando violão e cantando, acompanhado pelo Alberto ao cavaquinho e o Liveira que também “arranhava” alguma coisa na gaita-de-boca. Tudo isso e a boa saúde de todos, faziam a visível alegria de nossos pais.
      O primeiro grande revés que sofremos foi o acontecimento da morte prematura do Liveira, em 1950, aos 24 anos, casado há pouco tempo. Chorávamos ainda a falta lamentável desse irmão tão querido, quando perdemos nosso inesquecível pai, no ano de 1951, inesperadamente.
     Foram essas as primeiras datas de profunda tristeza por que todos nós passamos. Parece que o mundo havia desabado sobre a cabeça de cada um.
Por outro lado, alguma coisa boa também já estava acontecendo: a “cegonha”, que já havia trazido um presente para a Neri, passou na casa da Jovina onde deixou a Sônia e logo sobrevoava novamente o lar do José para fazer entrega de mais um “pacotinho”: Era a Ione que chegava para fazer companhia à Cleni. Daí para cá a referida “ave”, sempre bem-vinda em nossas casas, não teve mais descanso. Vem realizando agora viagens intermunicipais e até interestaduais para levar “encomendas”.
Oliveiros possuía características fisionômicas muito semelhantes às da mãe (moreno, cabelos pretos, ondulados, com leve pinta acima do lábio superior) foi também seu principal ajudante nos serviços referentes aos cuidados com o forno do melado e o tacho da rapadura e do açúcar, enquanto morou em casa.
     Nossa querida genitora conseguiu superar essa adversidade, reuniu forças e ressurgiu como uma guerreira gigante a comandar o resto da família que ainda lhe sobrou em casa (os menores, Mariana, João, Vicente e Sergio), com alguma ajuda de tia Ziloca , especialmente nos cuidados ao tio Godo em estado de invalidez.
     Aquela pessoa tão doce, que não sabia elevar a voz ou queixar-se de algo, veio sofrer novas amarguras nos anos de 1969, 1992, 1993 e 1996, pelo desaparecimento de outros entes muito queridos: Alberto, filho afastado de casa há muitos anos, mas que nunca a abandonou; Lídio, mais que genro, um verdadeiro filho que sempre a acolheu em seu lar; João, aquele garotão gracioso, sempre com uma brincadeira gostosa e de bom humor; e, Vicente, o seu fiel companheiro, aquele que mais permaneceu ao seu lado e que teve a graça de herdar muitas de suas virtudes, foi um homem trabalhador, calmo e resignado, que aceitou o padecimento que o consumiu, sem nada reclamar. Que falta danada fazem eles.
      A longevidade de nossa mãe, 97 anos, precisa ser agradecida a Deus que permitiu sua presença entre nós por todo esse tempo e também ao conhecimento de alguns profissionais médicos que trataram suas pequenas enfermidades, na velhice, porque antes não as conhecia. Além disso, temos o dever de registrar o nome de mais algumas pessoas e famílias muito especiais, que fizeram todo o possível para o prolongamento de sua existência, quando maiores atenções se fizeram necessárias: a primeira é uma jóia rara e preciosa que o Vicente “garimpou” ali mesmo na Aldeia Velha, que não deve ser tratada simplesmente como cunhada: obrigado minha irmã Nilda, você ultrapassou os limites de suas obrigações, tanto nos cuidados com nossa mãe como no carinho prestado ao seu marido; a segunda, nossa irmã Maria do Carmo, que juntamente com o marido Lídio, filhos e netos, concederam a ela o melhor do acolhimento e benevolência, como se fosse um segundo lar; a terceira, nossa irmã Mariana, juntamente com o marido Ivo, filhos e netos, em cuja casa, que foi seu último paradeiro, encontrou muita paz e muita tranqüilidade, e onde, no dia 08.12.97, às dez horas, cercada do respeito e da ternura de todos, serenamente, entregou sua alma ao Criador.
O gesto caridoso e carinhoso do Ivo, nessa fase terminal, extrapolou qualquer obrigação de genro e só pode ser entendido como o verdadeiro amor filial que toda mãe gostaria de receber. Obrigado meu irmão.
Nenhuma gratificação será suficientemente grande para pagar a dedicação destas pessoas, somente Deus, na sua infinita bondade, poderá recompensá-las. Neste rol estão incluídas as demais viúvas da família que também foram incansáveis no zelo com seus maridos já desaparecidos: a Jovina, a Augusta, a Ivone e a Neri.
Alguns meses após, nosso saudoso irmão mais velho, José, que também esteve presente àquele episódio amargo da queda de nossa viga mestra, foi acometido de doença que o levou a hospitalizar-se, melhorou, retomou novamente o ritmo de suas ocupações, viajou ao litoral onde tinha casa de veraneio, dirigindo automóvel, e lá, em 11.12.98, despediu-se da vida, sem dor, sem sofrimento, como convinha a um homem de sua estirpe, calmo, tranqüilo, que nunca desejou o mal a alguém.
     A figueira, aquele monumento vegetal grandioso, que foi testemunha de todos os nossos bons e maus momentos, parece que teve a sensibilidade de solidarizar-se com os últimos fatos e resolveu tombar sem vida no mesmo ano de 1998, depois de cento e tantos anos de pura e agradável amizade com toda a família Oliveira.
    Encerrando, queremos consignar nossa imorredoura gratidão a todos os que passaram por aqui, abriram e iluminaram os caminhos para que soubéssemos desviar das trilhas fáceis que podem levar aos vícios e à degradação humana, e, foram chamados mais cedo para uma reunião no andar de cima. Gostaríamos que tivessem ficado mais um pouco, mas certamente era muito importante e urgente o assunto a discutir no Plano Superior. Obrigado por tudo aquilo que vocês fizeram.
    Descansem em paz.
    Que Deus os tenha, ilumine e guarde.

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    Abaixo, em fotos recentes, podemos ver o local exato que serviu de berço à nossa família, desde seu primeiro ancestral conhecido, e, onde se desenrolaram os fatos desta narrativa. Poucos são os sinais que ainda existem da passagem deles por ali:







Antonio Luiz de Oliveira – mai/2010

4 comentários:

  1. QUE SAUDADES DA MINHA INFÂNCIA, NÃO SOU DA ARVORE DOS OLIVEIRAS, MAS MUITO ANDEI DE BALANÇO NESTA LINDA FIGUEIRA.
    NELA EMBALEI OS MEUS MAIS BELOS SONHOS E CRIANÇA.

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  2. ANTONIO, QUE COISA IMPRESIONANTE COMO A MINHA MÃE E A TA ERAM PARECIDAS, VOU TE MANDAR UMA FOTA DA MINHA MÃE MAIS OU MENOS COM A IDADE DA TIA NESTE OTO DO BLOG
    E PARABENS POR ESTA BELA ARVORE, ME EOCIONEI MUITO.
    ABRAÇOS

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  3. DESCULPE OS ERROS ESTAVA CHORANDO DE EMOÇÃO E NEM VISUALIZEI,PARA VER SE ESTAVA TUDO CERTO.

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