sábado, 29 de junho de 2013

Depoimento

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(Texto de autoria da neta Felícia, a ser publicado em livro de depoimentos editado pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC-, onde foi diplomada como Bibliotecária).


Bendito bibliotecário, o que semeia livros
Felícia de Oliveira Fleck


Oh! Bendito o que semeia
 Livros... Livros a mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe - que faz a palma
É chuva - que faz o mar

Castro Alves[1]

  
Bendito bibliotecário, o que semeia livros, que oferece aos leitores a possibilidade de contato com outras visões de mundo, novas formas de pensar e repensar, que compartilha suas leituras, suas experiências e principalmente o seu tempo com aqueles que buscam o saber, nas suas mais variadas formas.
Minha vida sempre foi semeada por muitos livros. Os primeiros me foram dados de presente por meus pais, ótimos leitores, que também embalavam as minhas noites e os meus sonhos com as histórias lidas ao pé da cama.
Com meus avós, em veraneios prolongados a quatorze quadras do mar, foi semeada em mim a curiosidade. Entre uma palavra cruzada e outra, eles falavam provérbios, expressões populares, cantavam músicas antigas, contavam histórias da família e, principalmente, desafiavam a mim e ao meu irmão com adivinhações e perguntas-pegadinhas, que vinham acompanhadas do riso largo e zombeteiro do meu avô:

- O que pesa mais: um quilo de penas ou um quilo de chumbo?

- Qual a cor do cavalo branco de Napoleão?

Irritada, eu não sabia responder: vai ver que é cor de burro quando foge!
De alguma forma, as perguntas e a busca pelas respostas me acompanham até hoje e acho que é por isso que gosto tanto de contar e ouvir histórias de adivinhação e esperteza, aquelas onde vence o mais astuto.
O amor aos livros e a curiosidade pelo saber me levaram ao curso de Biblioteconomia. Gostei logo de cara e gostei mais ainda, quando conheci a Profª Clarice Caldin e sua disciplina de Biblioterapia. Estudávamos os fundamentos da terapia através da leitura orientada e os exercitávamos no Hospital Universitário, lendo e contando histórias para as crianças internadas na ala pediátrica. Foi um desafio e tanto: escolher histórias adequadas a essas crianças, tendo um olhar atento e cuidadoso às suas condições físicas e emocionais; preparar uma boa forma de ler ou contar a história buscando despertar-lhes a atenção e, é claro, transcender nosso medo e vergonha de se expor em público, revelando, junto com as histórias selecionadas e a maneira de contá-las, um pouco de nós mesmos e de nossa própria história.
Foi uma experiência tão rica que, a partir dela, resolvi mergulhar fundo no universo das histórias: participando de diversos cursos de formação dentro e fora de Florianópolis, de rodas de histórias, eventos e de grupos de contadores...
Paralelamente a isso, desenvolvi alguns trabalhos como bibliotecária em bibliotecas escolares e também em uma biblioteca comunitária na Lagoa da Conceição chamada Barca dos Livros. No entanto, minha atuação como contadora de histórias foi crescendo, e com ela, a necessidade de ter tempo livre para viajar pelo estado e fora dele e de me dedicar integralmente a esse fazer.
Aí, tornou-se inevitável fazer a escolha: de funcionária bibliotecária e contadora de histórias à contadora de histórias e bibliotecária - profissional autônoma!
Foi no momento certo: tinha acabado de defender a minha dissertação no Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da UFSC, em que pesquisei justamente sobre a profissionalização do contador de histórias. Com este estudo, que contou com a valiosa orientação da Profª Miriam Cunha, tive a satisfação de conhecer diversas pessoas que se dedicam profissionalmente a esta arte e, com elas, também enriquecer a minha prática, além de poder sistematizar minhas reflexões sobre o lugar e o papel do contador de histórias na contemporaneidade.
A partir de então, vivo de contar histórias e partilhar minha experiência por meio de cursos e oficinas de formação para adultos e crianças. Para mim, a contação de histórias, mais do que um ofício, é uma forma de expressão no mundo.
A alegria de contar é semelhante à alegria de ler. Contar é compartilhar, talvez uma tentativa de intensificar o que foi lido, comunicando a experiência prazerosa da leitura.




[1] O Livro e a América. In: Poetas Românticos Brasileiros, vol. I. São Paulo: Lumen, s.d.

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